• Gabriela Bittencourt

As nuvens de poeira do deserto do Saara viajando pelo mundo


O mês de março foi marcado por uma intrusão de nuvens de poeira do deserto do Saara na Europa. Essa intrusão foi caracterizada como um evento incomum de tempestade que os cientistas chamaram de tempestade baroclínica com intrusão de poeira (no inglês, DIBS), onde suas características são nuvens geladas permeadas de poeira.


Modelo de dispersão de poluentes
Modelo de dispersão de poluentes, mostrando em tons de laranja e amarelo a poeira avançando sobre os países da Europa.

Em meados de março, foi observado um "rio atmosférico de poeira do Saara" atingindo altitudes de até 10 quilômetros. A nuvem de poeira atuou como partículas de nucleação para o gelo, levando à formação de nuvens cirrus geladas de alta altitude e infundidas de poeira.



Essa "nuvem de poeira" persistiu por quase uma semana cobrindo o céu de grandes partes da Europa e da Ásia.



“Na verdade, dois DIBS foram formados”, disse Mike Fromm, meteorologista do Laboratório de Pesquisa Naval dos EUA. “O fato de o rio de poeira alimentar dois DIBS separados torna isso notável”

A primeira tempestade começou em 15 de março de 2022, no centro-norte da Europa e se espalhou da Polônia, República Tcheca e Áustria até o sul do Mediterrâneo oriental.


Esse tipo de configuração também é incomum, afirma Mike Fromm, pois “geralmente se observa uma conexão direta de um DIBS à sua fonte de poeira seca, mais próxima do próprio deserto”.

Praia com nuvem de poeira do Saara
Foto de uma praia na região de Almeria, na Espanha — Foto: Arquivo pessoal/@nicolas639 via Twitter

Em 16 de março, uma segunda tempestade seguiu o padrão clássico, girando mais perto da fonte da poeira na África. A grande e generalizada nuvem de poeira continuou se movendo para o norte sobre a Europa em direção à Escandinávia e ao Oceano Ártico. Em seguida, moveu-se para o leste sobre o norte da Rússia antes de fazer uma curva anticiclônica e voltar para a Europa Oriental e a região do Mar Negro em 20 de março.


Imagem de satélite
Imagem adquirida pelo Moderate Resolution Imaging Spectroradiometer (MODIS) no satélite Terra da NASA em 17 de março de 2022.

Colin Seftor, cientista atmosférico do Goddard Space Flight Center da NASA, mostrou que grande parte da poeira estava circulando no topo das nuvens. “Isso significa que há poeira suficiente no topo das nuvens para dar um tom empoeirado”, disse Fromm. “No DIBS, a poeira e a nuvem de tempestade são uma só.”



As camadas de nuvens altas e empoeiradas produzidas pelo DIBS foram observadas viajando ao redor do mundo, e às vezes podem ser confundidas com cinzas vulcânicas, podendo afetar as trajetórias de voo. As nuvens cirrus mais duradouras podem afetar as previsões de temperatura e precipitação.


Modelo dispersão de poluentes
Modelo do movimento da poeira em 17 de março com base no Goddard Earth Observing System Model, Versão 5 (GEOS-5).

No final de março, outra grande tempestade de poeira começou a se dirigir para o norte, carregando a poeira do Saara sobre o Mediterrâneo e a Europa. Embora a última tempestade pareça ser igualmente grande, pode não ser tão duradoura, disse Seftor.


“Duas grandes [tempestades] como essa quase consecutivas são um tanto incomuns, mas os padrões climáticos no norte da África e na Europa durante a primavera parecem ser mais propícios à produção de tempestades de poeira que atingem a Europa do que em outras épocas do ano. ”


Nuvem de poeira do Saara no Brasil?


A nuvem de poeira do Saara atravessou o oceano Atlântico atingindo algumas cidades, principalmente litorâneas, como a costa do Ceará. As nuvens atingiram o norte do Brasil, e o estado que deve ser mais atingido pela poeira é o Amapá.



Eventos desse tipo são comuns no Brasil, e ocorrem várias vezes durante o ano, mas com intensidade e abrangência variadas. Geralmente, a poeira não cai do céu, nem é levada pelo vento e reveste os objetos.



A poeira do Saara fornece nutrientes importantes para a vegetação amazônica, sendo carregada pelos ventos alísios e também, dependendo do seu posicionamento, pela ZCIT.