• Paulo Vitor

Barragem de Sobradinho na Bahia está cheia após 13 anos

Após vários anos com volumes baixos, prejudicando a agricultura e geração de energia, em 2022 a barragem de Sobradinho no norte da Bahia está com 100% de sua capacidade.


Lago sobradinho Bahia
Visão parcial do vertedouro da Usina Hidroelétrica de Sobradinho, em Sobradinho, Bahia.

Sá e Guarabyra publicaram em 2001 uma música chamada "Sobradinho". Em sua letra, os cantores abordam um pouco sobre a construção do reservatório inaugurado em 1982, além de fazerem críticas a nostalgia em mais de 72 mil pessoas que foram retiradas de suas casas para dar área ao futuro lago, um dos maiores do mundo.



Apesar da pujança de oferta de água do reservatório (mais de 43 bilhões de m³ de água) e a possibilidade da realização de agricultura irrigada, controle de cheias, produção de energia elétrica e turismo, nos últimos anos sucessivas secas ocorreram na bacia hidrográfica do São Francisco, de sua foz a nascente. Isso impactou severamente o reservatório e as pessoas que dependiam dele. Em 23 de dezembro de 2015, o volume útil do lago de Sobradinho chegou a 1,98%, uma situação de colapso.


ruínas remanso seca sobradinho
Com as sucessivas secas e a redução do volume do lago, as ruínas das cidades submersas reapareceram. Na foto, ruínas de Remanso em 2015, durante uma das piores secas do reservatório.

Mas, a realidade de 2022 é bem distinta da vivida nos últimos anos e hoje o reservatório se encontra com 100% de sua capacidade. Desde dezembro, fortes chuvas ocorreram em todo o alto e médio curso do Rio São Francisco, o que colaborou para um aumento gradual da vazão do rio e o enchimento do reservatório. Mas, quais os fenômenos oceânicos/atmosféricos causaram essas chuvas e consequentemente o reservatório atingir seu volume máximo?


La Niña, TSM do Atlântico, ZCAS e a cheia em Sobradinho


A atmosfera é um fluído que respeita princípios complexos em escalas temporais e espaciais bem distintas. Vários fenômenos atuam de maneira conjunta e são determinantes para as condições de tempo e clima. Para compreender as chuvas na bacia do São Francisco, vamos dar enfoque para a La Niña e as anomalias quentes de TSM do Atlântico.



A La Niña refere-se ao resfriamento anômalo das águas do Oceano Pacífico Equatorial, esse resfriamento está relacionado a mudanças no comportamento do clima global, e dentre essas mudanças, a La Niña costuma causar mais chuvas para o Nordeste do Brasil. Durante a primavera de 2021 a La Niña esteve ativa. A primavera é caracterizada pelo período chuvoso em grande parte da bacia do Rio São Francisco na Bahia. Durante esse período, a convecção e a penetração de frentes frias no estado se acentuam, trazendo chuvas.


As anomalias quentes de TSM (temperatura da superfície do mar) também está relacionada ao aumento das precipitações sobre o Nordeste. Assim, de forma geral, é possível elencar que o fenômeno da La Niña e as TSM quentes do Oceano Atlântico na costa do Nordeste atuando em conjunto causaram as chuvas sobre o alto e médio curso (que são as áreas de captação de água para o reservatório) do Rio São Francisco e foram preponderantes para a sangria do lago.


Anomalia temperatura mar
Mapa de anomalia da temperatura da superfície do mar para os dias 1-15 de dezembro de 2021. No retângulo azul, observa-se anomalias frias na faixa equatorial do Pacífico evidenciando a La Niña. No Atlântico, na costa do Nordeste observa-se anomalias quentes, possibilitando mais chuvas sobre o Nordeste. Fonte: INMET, 2022.

Em dezembro, o mês foi marcado pela atuação de eventos de ZCAS (Zona de Convergência do Atlântico Sul) ao norte de sua climatologia, beneficiando a Bahia. Em nenhum lugar do mundo choveu tanto quanto na Bahia em dezembro de 2021. Em janeiro sucessivas ZCAS ocorreram sobre Minas Gerais, também colaborando para o rio São Francisco.



Eventos de ZCAS estão associados a uma condição de chuvas permanentes e volumosas sobre extensas áreas. Assim, a ZCAS atuou como um importante mecanismo de distribuição das chuvas. A ZCAS em especial na Bahia foi potencializada pela La Niña e o oceano quente. Portanto, a atuação em conjunto desses fenômenos foram os responsáveis pela sangria do reservatório após 13 anos.


ZCAS Chuva sudeste verão
Imagem de satélite para o dia 08 de janeiro de 2022. Observe o canal de umidade formado pela ZCAS atuando sobre o estado de Minas Gerais. Esse evento de ZCAS trouxe chuvas volumosas para o estado e bacia do São Francisco.