• Paulo Vitor

Estudo indica que monte Everest está "derretendo"

Através da revisão da literatura e interpretação de modelos ambientais foi possível compreender as mudanças recentes no clima e ambiente do Monte Everest e projetar cenários futuros para a maior montanha do mundo.

MONTE EVEREST CLIMA GELO
Pico do Monte Everest, localizado na fronteira entre o Nepal e Tibete a mais de 8.800 metros de altitude.

Pesquisadores chineses do Instituto Noroeste de Eco-Ambiente e Recursos da Academia Chinesa de Ciências (CAS), utilizando da revisão da literatura e de dados de modelagem ambiental, compreenderam alterações no clima de um passado recente no Monte Everest e posteriormente realizaram projeções de seu comportamento em um futuro próximo. Seus estudos foram publicados em Earth-Science Reviews.



Os dados e modelos utilizados tiveram como foco de análise a temperatura, precipitação, geleiras, lagos glaciais e ambiente atmosférico.


EVEREST CLIMA MONTANHA
Ao fundo observam-se geleiras associadas ao Monte Everest e em primeiro plano depósitos de moraina (moréia ou morena). A moraina é um depósito sedimentar que tem como gênese a ação do avanço e recuo de geleiras.

A partir de dados paleoclimáticos obtidos através da análise de núcleos de gelo e anéis de árvores (dendrocronologia) foram reconstruídos alguns ambientes do Monte Everest. Os pesquisadores descobriram que ocorreu um aquecimento na região da montanha durante o século XX. Ainda segundo o professor Kang Shichang, líder do estudo:

A região do Monte Everest experimentou um aquecimento significativo desde 1960, cerca de 0,33°C/década, com base nas observações meteorológicas de 1961 a 2018, mas a precipitação foi relativamente estável.

Ainda segundo os pesquisadores, existe uma tendência de que o aquecimento do Monte Everest permaneça no futuro até 2099. Atualmente, as áreas de geleiras no Monte Everest são de cerca de 3.266 km². Esse número representa uma diminuição em relação as décadas de 1970 a 2010 e deve estar relacionado com o aumento das temperaturas.



O degelo das geleiras acabam por aumentar a vazão dos rios nestas localidades e o crescimento do número de lagos glaciais e seus volumes. A área de lagos glaciais aumentou de 106,11 km² em 1990 para 133,36 km² em 2018, e o número de lagos glaciais aumentou 16,9%, indo de 1.275 no ano de 1990 para 1.490 no ano de 2018.


LAGO GLACIAL EVEREST
Lago glacial Imja na região do Everest em 2018.

Os lagos glaciais ainda podem representar uma ameaça as comunidades locais. Esta área está sujeita a fortes terremotos em virtude de suas características geológicas (serão abordadas sinteticamente adiante). Estes terremotos podem romper estes lagos e o escoamento da água armazenada geraria uma forte enxurrada nas áreas a jusante, atingindo as comunidades, causando prejuízos e podendo provocar mortes.

Todas essas descobertas indicam que a região do Monte Everest mostra sua resposta hidrológica ao aquecimento global. E pode se intensificar nas próximas décadas, potencialmente ameaçando a segurança dos recursos hídricos na região a jusante. Prof. Kang.

O Monte Everest, pelas características geomorfológicas (relevo) é uma das áreas de difícil acesso e com pouca perturbação humana. Apesar disso, os pesquisadores evidenciaram o transporte de poluentes atmosféricos provenientes do Sul da Ásia, Ásia Ocidental e Ásia Central. Sua crescente concentração ocorre deste a Revolução Industrial e pode ter sido intensificada pelo crescimento industrial da China e Índia nas últimas décadas.


Formação do Monte Everest


O Monte Everest é uma das diversas montanhas presentes na Cordilheira do Himalaia, sua formação está ligada ao processo de formação da cordilheira. A colisão recente (em termos geológicos) entre a placa Indo-australiana e a Asiática forçou a superfície da terra a se "dobrar" e se estender verticalmente. Esse processo segue ocorrendo na atualidade, os Himalaias e também o Everest seguem aumentando sua altitude. Algumas estimativas indicam uma movimentação de avanço da placa Indo-australiana de 67 mm ao ano.


FORMAÇÃO EVEREST ESQUEMA
Esquema ilustrativo da formação do Monte Everest. Em A exemplo de montanha gerada pela imagem B. Em B, a colisão das placas indo-australiana e asiática produz o processo de dobramento da superfície terrestre e a gênese do Monte Everest.

Vale destacar que o intemperismo e erosão também remove material da montanha, mas, a taxa de crescimento supera a taxa de erosão da montanha. Por ser uma área de colisão entre placas tectônicas, toda região do Himalaia e Everest está sujeita a ocorrência de terremotos. Os terremotos ocorrem em função da liberação da energia pela tensão do contato dos gigantescos blocos rochosos.