• Gabriela Bittencourt

Os meteoritos escondidos sob o gelo Antártico

Cientistas estimam que mais de 300.000 meteoritos e suas histórias ainda estão sob o gelo Antártico, esperando para serem encontrados. Um mapa mostrando onde procurar cada um desses meteoros está disponível.


Antártica
Geleiras da Antártica escondem milhares de meteoritos que podem conter informações sobre a formação do sistema solar.

Desde a descoberta do meteorito Adelie Land em 1912, os cientistas retiraram mais de 45.000 meteoritos do gelo da Antártica. Cada uma dessas “rochas espaciais” carrega uma história sobre a composição do nosso sistema solar e as condições que existiam no início de seu desenvolvimento.


Por décadas os cientistas procuram por meteoritos na região Antártica devido as várias vantagens que a paisagem no polo sul oferece, além do contraste entre rocha e gelo a identificação desses meteoritos torna-se fácil de detectar. O ambiente seco também ajuda a conservar os meteoritos no solo gelado da Antártica, e alguns caíram na Terra há mais de 1 milhão de anos.


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Apesar de ser fácil de se detectar, encontrar rochas pequenas espalhadas pela paisagem coberta de gelo com mais de 14 milhões de quilômetros quadrados é um desafio. Com isso, os cientistas vem estudando uma forma fácil de realizar esse processo e focaram suas pesquisas nas então chamadas "zonas de encalhe de meteoritos".



Essas zonas são regiões onde a geologia do local, o fluxo de gelo e as condições climáticas fez com que os meteoritos se agregassem à superfície. Essas zonas de encalhe são descobertas por acaso – muitas vezes perto de uma estação de pesquisa – ou pela varredura de mapas e imagens de satélite de áreas com gelo azul.


Quase todos os meteoritos são encontrados no gelo azul, que não tem cobertura de neve e permite que os meteoritos sejam expostos na superfície.

Região Antártica
Imagem da região Antártica no dia de 9 de março de 2022 utilizando Instrumentos: Aqua — MODIS Landsat 8 — OLI.

Veronica Tollenaar, glaciologista da Université libre de Bruxelles, e seus colegas estão trabalhando para identificar mais desses hotspots de meteoritos. Eles desenvolveram um mapa de probabilidade em toda a Antártida com base em um algoritmo de aprendizado de máquina que incorpora descobertas anteriores de meteoritos, juntamente com uma ampla gama de observações de satélite da NASA, da Agência Espacial Canadense, do Serviço Geológico dos EUA e de fontes comerciais.


“Para encontrar meteoritos, precisamos de vários fatores para combinar favoravelmente”, disse Tollenaar.

Os pesquisadores identificaram que a temperatura e a velocidade da superfície do gelo também são fatores importantes, para encontrar os meteoritos no solo, principalmente em áreas montanhosas e na periferia do continente, onde a maior parte do gelo azul é encontrada.


“Se as temperaturas subirem muito, ou se as velocidades do fluxo de gelo forem muito rápidas, não encontramos nenhum meteorito”, disse Tollenaar.

Meteoritos
Área Antártica com gelo azul e meteoritos.

Tollenaar acha que o gelo azul nesta região – perto da costa, mas situado em baixa altitude – é simplesmente muito quente. Os dados de temperatura da superfície do Moderate Resolution Imaging Spectroradiometer (MODIS) nos satélites Terra e Aqua da NASA indicam que os hotspots de meteoritos estão localizados em áreas de gelo azul que permanecem abaixo de -9 ° C (16 ° F) por 99% do tempo.


“São realmente os dias extremamente quentes que separam as áreas de gelo azul ricas em meteoritos das áreas sem meteoritos”, disse Tollenaar.

Em pouco tempo, temperaturas “quentes” podem fazer com que a superfície do gelo derreta – o que é ainda mais acentuado em torno de um meteorito devido à sua cor escura que absorve o calor – fazendo com que a rocha afunde no gelo e fique fora de vista.



Os pesquisadores desenvolveram então um índice de “onde ir”, que classifica os hotspots com base em seu potencial para sua visualização em campo. A área de Allan Hills está perto do topo desta lista. Localizado relativamente perto da Estação McMurdo, mais de 1.000 meteoritos já foram encontrados aqui. Também no topo da lista está uma região ainda inexplorada na cordilheira de Fimbulheimen, localizada a 120 quilômetros (75 milhas) da Estação Novolazarevskaya.


O amplo gelo azul da área é visível na imagem detalhada acima, adquirida em 27 de fevereiro de 2022, com o Operational Land Imager (OLI) no Landsat 8. Tollenaar está particularmente intrigado com um hotspot localizado nas Montanhas Ellsworth.


“Esta área está muito longe de áreas onde meteoritos foram encontrados anteriormente, mostrando que o algoritmo permite fazer uma análise em todo o continente para identificar áreas potenciais”.