• Paulo Vitor

O Dipolo do Oceano Atlântico

As anomalias da Temperatura da Superfície do Mar do Atlântico têm papel fundamental no regime de precipitação no litoral norte brasileiro.


dipolo oceano atlântico
A temperatura da superfície do mar é o principal fator na análise do Dipolo do Oceano Atlântico. Fonte: TropicalTidbits, 2022.

El Niño e La Niña são fenômenos oceânicos e atmosféricos (também chamado de acoplamento) que influenciam o clima global. Eles apresentam diferentes impactos em diferentes regiões do Brasil nas diferentes estações. Porém, existe outro fenômeno de acoplamento (menos conhecido) que influencia o clima no Brasil, em especial, das regiões Norte e Nordeste. É o fenômeno do Dipolo do Oceano Atlântico.


O que é o Dipolo do Oceano Atlântico?


O Dipolo do Oceano Atlântico, ou simplesmente Dipolo do Atlântico, se refere a uma variabilidade das anomalias de temperatura da superfície do mar no Oceano Atlântico Tropical (TSM). Em anos com as águas ao sul dos trópicos estão mais quentes que o normal e as águas ao norte estão mais frias, a Zona de Convergência Intertropical (ZCIT) se move mais ao sul de sua climatologia e é intensificada.



Em anos com águas mais quentes ao norte e frias ao sul, a ZCIT se move mais ao norte de sua climatologia e também é intensificada. A ZCIT é favorecida por águas mais quentes e as consequências disso são chuvas excessivas ou secas em variadas áreas. Esse é um dos efeitos dos padrões do Dipolo do Atlântico.

As fases do Dipolo e a influência no clima do Brasil


Esse padrão de dipolo é caracterizado por duas fases, sendo elas uma fase positiva e outra fase negativa. Diferentes impactos sobre o Brasil são observados de acordo com a fase em que o dipolo está configurado.



A fase Positiva do Dipolo é configurada quando águas mais quentes em relação à climatologia ocorrem ao norte dos trópicos, enquanto que ao sul, predominam águas mais frias. A fase Negativa do Dipolo é o inverso, estando configurada quando as águas mais quentes estão ocorrendo ao sul dos trópicos, e ao norte estão ocorrendo águas mais frias.


dipolo oceano atlântico
Fase Negativa do Dipolo ativa. Observe o retângulo vermelho indicando águas mais quentes que o normal no Atlântico Sul e o retângulo azul indicando águas mais frias sobre o Atlântico Norte. Esse padrão é o indicativo da fase negativa do dipolo ativa em janeiro de 2020. Fonte: INMET, 2022.

Como exemplificado na imagem acima, em janeiro de 2020 estava configurada a fase Negativa do Dipolo. A Fase Negativa é caracterizada por aumentar as condições para chuvas no Nordeste, porque aumenta o transporte de umidade para a região, bem como a fase Positiva do Dipolo influencia as secas na região, em especial, o Norte do Nordeste. Com isso, na região Nordeste em janeiro de 2020 foram observadas chuvas regulares e bastante acima da média sobre a região devido o padrão do dipolo estabelecido.


chuvas dipolo nordeste
Anomalia de precipitação observada no Brasil em janeiro de 2020. Observe que o Nordeste foi beneficiado com chuvas acima da média.

O Dipolo em sua Fase Negativa foi indispensável para que a região Nordeste tivesse chuvas acima da média. Em resumo:


  • Fase Positiva do Dipolo: temperaturas ao norte dos trópicos mais quentes que o normal e ao sul, águas mais frias. A consequência no Brasil é desfavorecimento das chuvas no Nordeste. O Dipolo Positivo está relacionado com secas na região Nordeste.

  • Fase Negativa do Dipolo: temperaturas ao sul dos trópicos mais quentes que o normal e ao norte, águas mais frias. A consequência no Brasil é o favorecimento das chuvas no Nordeste. A fase negativa favorece a atuação da ZCIT sobre o Nordeste e a ocorrência de anos chuvosos.