• Paulo Vitor

O período chuvoso no Leste do Nordeste

Durante o período de outono e inverno, enquanto a maior parte do país apresenta poucas chuvas, baixa umidade do ar e incêndios florestais, o leste do Nordeste apresenta seu ápice de chuvas e temperaturas mais amenas.


CHUVA NORDESTE INVERNO
As precipitações que ocorrem neste período costumam causar diversos transtornos para os moradores do leste do Nordeste, em especial os moradores das capitais e áreas metropolitanas adjacentes.

Climatologicamente o período que compreende o outono e inverno marcam uma redução significativa das chuvas pelo país, em especial nas regiões centrais do Brasil, as temperaturas mínimas se tornam mais baixas, a umidade relativa do ar fica abaixo dos 70% necessários para manutenção da saúde dos seres humanos em muitos dias e os incêndios florestais se tornam recorrentes nos noticiários. Isso ocorre porque os sistemas precipitantes de verão, como a ZCAS (Zona de Convergência do Atlântico Sul) deixam de atuar durante esse período.


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A Climatologia do outono-inverno no Leste do Nordeste


Mas, apesar dessa redução das chuvas pelo país, no leste do Nordeste esse período marca o ápice das chuvas, as precipitações se elevam durante abril, atingem seu pico de elevação nos meses de junho/julho e posteriormente se reduzem. Além do aumento das chuvas, o outono/inverno marca também a diminuição das temperaturas máximas na área e também as temperaturas mínimas ficam menores.


As temperaturas máximas ficam abaixo dos 30° C e as temperaturas mínimas em torno de 22°C. Já a precipitação entre abril-agosto supera os 1.100 mm. Esses valores nesta época do ano são muito superiores aos observados durante todo o ano em municípios do sertão.


CHUVAS INVERNO NORDESTE
Observando o leste do Nordeste é possível visualizar uma faixa estreita com ocorrência de chuvas na época. Fonte: INMET.

Os Sistemas Meteorológicos atuantes e a variabilidade anual das chuvas


Neste período vários sistemas precipitantes atuam no Nordeste, os VCAN's não ocorrem mais na região e assim não suprimem a formação das chuvas. A partir do mês de abril ocorre a atuação dos Distúrbios Ondulatórios de Leste, essas perturbações se deslocam lentamente do oceano para o continente e trazem consigo muita chuva. Esse deslocamento pode durar dias, a nebulosidade associada aos DOL's pode ser facilmente identificada nas imagens de satélites devido a presença de nuvens tipo cumolonimbus.


CHUVAS NEB DOL
Em junho de 2010 a ocorrência de um DOL sobre a costa de Alagoas e Pernambuco matou 44 pessoas e destruiu pontes, estradas e danificou seriamente a infraestrutura de 30 municípios nos 2 estados

A ASAS (Alta Subtropical do Atlântico Sul) intensifica seu escoamento durante o inverno nos baixos níveis e transporta muita umidade do oceano para o litoral, causando chuvas estratiformes. Esse transporte de umidade ocorre também em outros períodos do ano, mas no inverno é mais recorrente.


As Perturbações Ondulatórias dos Alísios são causadas pelo deslocamento das frentes frias em alto mar, a passagem da frente direciona umidade ao continente e a nebulosidade associada são de nuvens estratiformes, causando chuvas.


Ente os dias 8-13 de julho de 2019 um evento de Perturbações Ondulatória dos Alísios canalizaram umidade sobre Sergipe e áreas da Bahia. Durante essa semana choveu em Aracaju o que seria esperado no mês.

As anomalias quentes de TSM (Temperatura de Superfície do Mar) estão ligadas aos anos considerados chuvosos em que se observam desvios positivos na ocorrência de chuvas. Anomalias de TSM frias estão relacionados a um período chuvoso mais seco.



As chuvas observadas também penetram nas áreas adjacentes do agreste e sertão mais próximos da costa, mas com uma redução significativa em relação aos índices pluviométricos observados nas zonas litorâneas.


As consequências das chuvas no leste do Nordeste


As chuvas observadas neste período possuem diversos papéis positivos, como recarga de reservatórios que abastecem a população de algumas áreas metropolitanas a exemplo de Salvador e Aracaju. É neste período que ocorre o plantio do milho, feijão, batata doce, inhame sem depender de irrigação, além da engorda do gado nas zonas de agreste e sertão. Nestas zonas, durante o inverno a caatinga apresenta seu período de "enverdecimento".



Mas, infelizmente se essas chuvas nas áreas citadas contribuem economicamente, nas zonas litorâneas elas costumam também causar mortes e estragos. A ocupação de áreas de encosta e de várzeas costumam causar deslizamentos de terra e alagamentos. Isso ocorre sobretudo quando os volumes elevados de chuva se concentram em poucos dias.


Alagamentos na BR-230 em João Pessoa no dia 13 de junho de 2019. Na ocasião em 48 horas choveu 317,2 mm.

Em abril de 2021 na cidade de Recife choveu 263 mm entre os dias 10, 11 e 12. Apenas no dia 12 choveu 135,8. Essas chuvas causaram diversos estragos no Recife e nas cidades da região metropolitana, com vários alagamentos.

Como resposta a essas chuvas, as prefeituras das grandes cidades e governos estaduais têm programas de prevenção, como alertas, sirenes e de combate posteriormente as chuvas.